Tópico: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)  (Lida 5589 vezes)

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2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« em: Maio 22, 2012, 01:50:53 »
Vou partilhar aqui os resumos diários que fiz durante a minha travessia do Caminho Francês no ano passado.
É natural que haja um ou pontapé na gramática no meio do texto, dado que foi tudo redigido com um telemóvel :) (tanta horinha que usei para fazer os relatos diários).
Espero que gostem da reportagem e que fiquem motivados para fazer este Caminho numa próxima aventura.
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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #1 em: Maio 22, 2012, 01:51:04 »

31/07/2012 - Etapa 1


Hoje iniciámos a nossa grande aventura. Como nenhum de nós é grande madrugador, “só” acordámos por volta das 7h30. Digo só porque dividimos o quarto com mais 4 pessoas e quando acordámos já só estávamos os 3.
Tratámos da alimentação, com a primeira prova dos suplementos fornecidos pela Evo Nutrition. Pode ter sido apenas um factor psicológico mas a verdade é que chegámos ao final da etapa sem aquela sensação de cansaço que seria de esperar al fim da etapa de hoje.


Eram cerca das 9h30 quando saímos do albergue. Levámos cerca de 30 minutos até conseguir por as bicicletas no ponto, naquele que foi o primeiro contratempo do dia (o Ricardo teve alguma dificuldade na pressão dos pneus e da suspensão, atendendo ao peso extra da mochila).


Nada nos fazia pensar que esta etapa ia ser recheada de surpresas. O Óscar começou o leque de problemas logo numa das primeiras subidas: um dos “cornitos” cedeu e foi necessário recorrer a algum engenho para resolver a questão. Deslocámos o punho um pouco mais para dentro para fixar o cornito e descentrámos o guiador propositadamente para compensar isso.
Mais tarde, num dos primeiros trilhos de terra, enquanto o Ricardo posava para a foto tombou para um dos lados, caindo sobre a vegetação que amparou a queda. 30 metros mais tarde apercebeu-se que não tinha consigo o aparelho de GPS. Numa consulta rápida à foto percebemos de imediato que o gps tinha caído no tombo. Seguiu-se uma busca desenfreada no mato onde aconteceu a queda, com direito a limpeza da mata com recurso a uma faca de características militares que o Ricardo trouxe. E lá estava o aparelho, por baixo de um tufo de erva.


Chegámos a Roncesvalles por volta das 15h, com imensas paragens pelo caminho e cheios de vontade de almoçar. Com os restaurantes cheios, não nos restou outra alternativa senão continuar até à próxima localidade para encontrar algo. 2 quilómetros mais adiante encontrámos um restaurante agradável, onde comemos um belo almoço.


A maior surpresa chegou às 17h. Levámos para o albergue para informar que estávamos a caminho quando nos informaram que deveríamos ter teléfonado mais cedo e que por isso a nossa reserva ficou sem efeito. Após conferenciarmos, optámos por continuar até Zubiri e procurar alojamento na hora. Para nossa sorte ficámos alojados no albergue municipal, no pavilhão, com todas as condições e por quase 1/3 do custo.


Para terminar o rol de azares, a uns 6 quilómetros de Zubiri o Óscar furou, mas rapidamente tratamos de resolver isso.
A viagem ainda agora começou, mas já se pode dizer que está a ser uma aventura fora de série. As paisagens são lindíssimas e fizemos trilhos fantásticos, em caminhos ladeado por árvores e vegetação verdejante.
Amanhã espera-nos outra etapa, menos intensa na altimetria mas mais extensa na distância. É hora de repousar e recuperar forças para estarmos a 100% amanhã.




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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #2 em: Maio 22, 2012, 01:51:17 »

01/08/2012 - Etapa 2
65.6 km, 1182 metros de acumulado, 35° à sombra. Estes foram os ingredientes da etapa de hoje.
A alvorada de hoje foi um pouco antes das 8h, com muita relutância em nos levantarmos. Eu tinha o meu telemóvel a despertar às 7h30, mas graças aos fantásticos tampões para os ouvidos que trouxe, não ouvi nada. Felizmente que os nossos vizinhos já estavam acordados, caso contrário poderia ter sido motivo para um motim.
Tomámos um pequeno almoço reforçado, com uns belos bocadillos de jamón serrano.
Passados alguns quilómetros, surge o primeiro furo do dia. O Ricardo teve um furo na roda traseira que causou a primeira imobilização do dia. Felizmente, após umas quantas bombadas de ar, o pneu ficou ok, graças ao vedante.


Os primeiros trilhos de hoje foram fantásticos. Quase sempre a descer, mas sem muita inclinação, serpenteámos em trilhos estreitos em ziguezague, com imensas árvores, junto à um rio. A maior parte destes primeiros trilhos foi basicamente single tracks, o que nos trouxe de vez em quando alguma dificuldade atendendo ao facto de haver alguns peregrinos a pé nos trilhos. Com um pouco de vagar e respeito tudo se passou, ainda que muitas vezes os peregrinos a pé se juntem lado a lado mesmo nos caminhos mais largos, dificultando a passagem a quem vai de bicicleta. Tenho mesmo de tentar montar a campainha que trouxe comigo…
A uns quantos quilómetros de Pamplona optámos por não seguir pelo trilho original, dado que a sua parca largura, a quantidade de peregrinos a pé e ser em subida demoveu-nos dessa opção. Seguimos por um trilho alternativo para bicicletas, menos interessante mas mais ciclável. Tivemos alguma pena, porque o que realmente gostamos é de trilhos de terra, mas atendendo às circunstâncias foi a melhor opção.


Chegados a Pamplona por volta das 12h, resolvemos preparar o almoço de hoje. Comprámos umas baguettes generosas, presunto, queijo e… tomate. Não fizemos uma salada, mas o Óscar sugeriu uma iguaria que é tão simples mas ao mesmo tempo saborosa e que consiste em barrar literalmente o conteúdo do tomate no pão antes de colocar o resto. Feitas as compras, fomos refrescar-nos com uma bela cerveza con limón na Plaza Mayor de Pamplona. Aproveitámos também para mudar a câmara de ar da roda de trás da bicicleta do Óscar, altura em que descobrimos que as câmaras de ar que transportámos abaixo do espigão do selim estavam rotas por causa de arrastarem uma vez ou outra no pneu.


A viagem seguiu por trilhos mais inóspitos, em descampados pouco interessantes e sob um calor tórrido. Foi por esta altura que o Ricardo se adiantou um pouco. Eu seguia junto ao Óscar e quando alcançámos uma zona com algumas árvores e sombras, resolvemos parar, na expectativa de que o Ricardo voltaria para trás mais cedo ou mais tarde. Na realidade o Ricardo confundiu outro ciclista comigo, que seguia mais atrás, pensando que íamos atrás dele.


Enquanto esperávamos pelo Ricardo, travámos conhecimento com dois italianos que estavam a fazer o caminho com uma alemã. A italiana falava um castelhano perfeito, mas a moça alemã tinha de recorrer a um processo que, se me recordo bem, consistia em falar com os italianos. Em inglês, que por sua vez traduziram o que a alemã dissesse para inglês.
Passado algum tempo o Ricardo apareceu. Eu e o Óscar já tínhamos tratado de comer e o Ricardo rapidamente tratou do mesmo. Seguiu-se um repouso de cerca de 30 minutos (siesta no caso do Óscar) e depois de aí seguiu-se que a penosa subida até ao Alto del Perdón.


Felizmente o que sobe tem de descer e fomos prendados com umas descidas fantásticas e técnicas devido às imensas pedras soltas.
De resto o percurso foi relativamente acessível, com excepção das últimas 2 valentes subidas que numa delas me obrigou a descer da bicicleta e na outra o Óscar declarou oficialmente o fim da carga das suas pilhas de energia.


Estávamos nesta altura a menos de 4 quilómetros de Villatuerta (o nosso destino de hoje) e o Óscar decidiu não arriscar e seguiu ao nosso lado más por alcatrão.
Infelizmente a bateria do Android foi-se a meio do percurso, pelo que o tracking em tempo real não foi completo hoje. Esperemos que não suceda de novo.


Chegámos ao albergue., onde fomos fantasticamente recebidos. A proprietária do albergue é uma senhora brasileira que nos recebeu como se fôssemos aquela família que já não se vê há imenso tempo é sempre bom rever.
O albergue é fantástico, muito bem arranjado, um tanto ou quanto esotérico e que une o moderno com o tradicional de forma equilibrada.
O dia termina com uma fantástica refeição que o Ricardo preparou e que nos deixou mais que satisfeitos. Um pormenor caricato da refeição foi o facto de o dog alemão dos proprietários se ter juntado a nós, implorando por comida. O cão é certamente educado, pois agradeceu ao Ricardo com beijo quase digno da designação de “french kiss”.
E por hoje a reportagem termina, para descansar um pouco para a etapa de amanhã.





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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #3 em: Maio 22, 2012, 01:51:26 »

02/08/2012 - Etapa 3
Hoje tivemos uma etapa relativamente acessível, o que foi perfeito para relaxar um pouco do esforço inicial das primeiras etapas.
A noite foi um pouco desconfortável. O quarto estava muito quente e como tínhamos a janela fechada, o calor tornou-se um pouco incómodo.
De madrugada acordámos com uma trovoada como nunca tinha visto (ou ouvido, para ser mais preciso) e com uma chuva torrencial. Ainda meio a dormir peguei no foco de luz e fui a correr ao pátio do albergue para recolher a roupa que tinha deixado estendida. Para além da molha que apanhei, a roupa ficou um pouco molhada e o resto da noite não foi suficiente para secar completamente.
O pequeno almoço foi tomado no albergue, onde os proprietários deixaram pão, doces, manteiga, entre outros à disposição. Deixámos um pequeno donativo para agradecer pela refeição.
Dado que no dia anterior passámos por trilhos muito secos, demos um jeito às bicicletas limpando a transmissão e aplicando algum óleo.
Enquanto eu e o Ricardo tratámos das bicicletas, o Óscar foi buscar os mantimentos para o almoço de hoje: a receita vencedora de ontem, pão de baguette, presunto e queijo (hoje sem tomate, por esquecimento).
Com tudo isto acabámos por sair a pouco mais de 10 minutos para as 11, francamente tarde.
A viagem ficou cedo marcada por um problema mecânico no travão frontal da bicicleta do Ricardo, que já tinha dado sinal no dia anterior. Tendo em conta o comportamento, será alguma fuga de óleo do circuito hidráulico, mas estamos já a fazer figas para que não seja isso.
Numa tentativa de testar os travões numa ponte de madeira, tivemos a primeira queda da viagem, digna dessa classificação. Felizmente não passou de um susto e de uns pequenos arranhões que fazem muitas vezes parte até das voltinhas de domingo.
O ponto alto da viagem foi na Fonte de Irache, a famosa fonte de vinho. Um pequeno gole para a foto e seguimos viagem.
O restante percurso da viagem foi pacífico, predominantemente em grandes estradões, com uma ou outra subida que deu mais luta.
Chegámos a Viana por voltas das 14h20, a cerca de 10 quilómetros de Logroño. Foi a altura perfeita para fazermos os nossos bocadillos e descansar um pouco à sombra das árvores.
Um pouco antes de arrancamos reencontrámos um casal de cerca de 50 e poucos anos, de Barcelona, e que estavam no mesmo albergue que nós.
Pedalámos com um ritmo certinho nos quilómetros finais, num percurso especialmente rolante.
Ao chegarmos a Logroño tivemos alguma dificuldade para encontrar o albergue, dado que não fica no caminho. Uma consulta rápida ao GPS e chegámos ao albergue num ápice.
Desta vez vamos partilhar a divisão com mais peregrinos, dado que só há uma divisão no albergue. Se ficar completo (que é bastante provável), seremos 40 pessoas ao todo numa divisão de cerca de 70 metros quadrados. A verdadeira experiência do peregrino  .
Amanhã esperam-nos 70 quilómetros, quase sempre a subir, ainda que se for ligeira. O esperamos que o jantar de massa italiana seja suficiente para aguentar a etapa.




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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #4 em: Maio 22, 2012, 01:51:33 »

03/08/2012 - Etapa 4
Mais uma etapa terminada. Desta vez completámos quase 80 quilómetros, numa etapa apenas de estradões, com subidas pouco acentuadas.
Como a regra do albergue era sairmos até às 8h, hoje saímos relativamente cedo. Decidimos comprar alguma coisa para o pequeno almoço , à semelhança do que temos feito para o almoço. Fomos directos ao mercado de Logroño, na expectativa de comprar pão e enchidos. Não encontrámos padaria, mas parámos junto a uma frutaria muito agradável, onde comprámos umas bananas e uns pêssegos. Após alguma conversa com a senhora da frutaria, ela ofereceu-nos um saco com pêras. Comida a fruta, seguimos viagem à procura de pão. Assim que entrámos na padaria, mudámos de planos: não resistimos a um bolo doce, de tamanho semelhante à um pão grande da aldeia, mas cada uma textura húmida e com frutos secos no meio. 3 fatias depois partimos.
Passámos por um lago após o parque e após sairmos da zona limítrofe de Logroño, onde logo após passámos por um parque fantástico, onde um pequeno esquilo fez o ar da sua graça.
Ultrapassada Logroño, seguimos ao longo de vários quilómetros, em estradões bastante rolantes, de pouca inclinação.
Pelo caminho troquei umas breves impressões com uma moça francesa que está a acompanhar o marido numa peregrinação que teve início em Lyon, França. O que me chamou à atenção foi o facto de ela trazer uma criança às costas. Na breve conversa soube que está a alternar a peregrinação com o su marido, cabendo a ela cerca de 2 a 3 horas de caminho.
Mais tarde passámos ao lado de um campo de golf, que tanto quanto sei a sua existência recente impôs uma alteração ao percurso original do caminho. É curioso e estranho ao mesmo tempo constatar o contraste entre a simplicidade e simpatia de todos aqueles que percorrem o caminho e a postura debutante e a montra de viaturas topo de gama à porta do resort.
Eram cerca das 21h30 quando chegámos a Santo Domingo De La Calzada, onde encontrámos o sítio ideal para comer e descansar. E o almoço de hoje foi particularmente reforçado, dado que o pão que comprámos em Nájera era especialmente grande, já para não falar na quantidade de chouriço e queijo que serviu de recheio às sanduíches.
Como no início da localidade há uns lavagem automática, eu e o Ricardo aproveitámos para dar uma lavagem rápida e livrarmo-nos do pó que se acumulou nos últimos dias.
Tivemos oportunidade de conversar com uns senhores que também estão a fazer o caminho de bicicleta. Trocámos algumas impressões sobre as bicicletas e sobre o projecto Rumo a Santiago.
O jersey chamou a atenção de alguns transeuntes, nomeadamente um holandês que já fez o caminho a pé e que é aficionado do btt. Talvez venha a ser o primeiro bttista não português com o jersey oficial Rumo a Santiago.
Enquanto o Óscar fazia a sua siesta, reencontrámos um grupo muito divertido de 3 ciclistas catalães com que nos temos cruzado bastantes vezes. No meio de conversas e piadas, houve tempo para trocar contactos e fazer uma foto com o mono pé da XShot, que é, sem dúvida, um acessório fantástico.
Findo o almoço e o descanso, seguimos viagem, sem nada de particular a frisar.
Chegámos ao albergue de hoje (A Santiago) por volta das 18h, facilmente distingivel pelas inúmeras bandeiras na rampa de entrada. Não é um dos albergues melhores
dos que já conhecemos. Os quartos, ainda que só de 8 pessoas, são muito pequenos. Além do mais, os duches são muito abaixo da média, sem forma prática de pousar os haveres e WCs pouco cuidados. A falta de um local próprio para lavar a roupa à mão é também um ponto negativo, ainda que disponha de uma lavandaria com máquinas de lavar e secar.
Para o jantar de hoje optámos pelo mesmo que há 2 dias: comprámos os ingredientes e o Ricardo deu largas ao seu talento na cozinha preparando umas ervilhas com chouriço, bacon, cogumelos frescos e ovo. Foi uma refeição tão boa que toda a gente que entrava na cozinha ficou deliciada com o aroma, tanto que a dada altura houve uma troca de pratos, o que nos conferiu a oportunidade de comer queijo e chouriço que nos foi oferecido por uma senhora espanhola.
Como azares do día há a registar um furo na roda traseira da bicicleta do Ricardo (por cima na câmara de ar nova, comprada ontem em Logroño), o travão dianteiro que, definitivamente, está a perder óleo, e o cartão de memória da máquina do Ricardo que se recusa a funcionar (esperamos conseguir recuperar as imensas fotos já tiradas, caso contrário será uma frustração tremenda).
Amanhã são mais 80 quilómetros, pelo que é chegada a hora do já habitual descanso.






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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #5 em: Maio 22, 2012, 01:51:42 »

04/08/2012 - Etapa 5
Mais uma etapa superada. Desta vez superámos a nossa marca anterior de distância, somando mais cerca de 90 quilómetros ao total que já percorremos, perfazendo um total de 330 quilómetros percorridos. Em bom rigor, estamos sensivelmente a meio da viagem em termos de etapas, embora estejamos apenas a pouco mais de 1/3 da distância até Santiago.
O dia começou cedo, por volta das 7h. Não era a intenção original, mas como deixei o telemóvel a carregar numa tomada rente ao chão (hoje fiquei no topo do beliche), um alarme esquecido começou a tocar a essa hora. Como temos tido sinfonia nasal todas as noites, estava a usar tampões para os ouvidos e só acordei quando o Ricardo me abanou para desligar o alarme.
Como era esperado, a viagem passou essencialmente pelo mesmo tipo de caminho, com longos estradões. Pelo meio, antes de alcançarmos o Alto de la Pedraja, tivemos uma pequena prova de perícia durante uns subida em que o piso estava crivado com rocha.
Como tudo o que sobe tem de descer, logo de seguida tivemos direito a uma valente descida técnica, com muita pedra solta. Eu ia tão entusiasmado que me esqueci de fechar a bolsa da máquina fotográfica. A meio da descida vejo a máquina a ser projectada no ar e pensei o pior para a máquina e para mim, dado que tive de fazer o algum malabarismo para segurar a máquina e abrandar com segurança. Valeu o facto de eu trazer sempre a máquina presa com um fio.
Seguimos viagem, sem nenhum percalço, ao longo de imenso caminho que atravessa os campos de cultivo que se estendem até onde a vista alcança.
A paragem para o almoço foi em Burgos, junto à catedral. Enquanto o Óscar repouso um pouco, fomos até à Decathlon na expectativa de conseguir arranjar a bicicleta do Ricardo. Infelizmente o mecânico de serviço só regressava às 15h30, pelo que não pudemos esperar.
Seguimos viagem, com algumas voltas pelas imediações da catedral até darmos com o caminho. Passámos perto do parque que é um dos cenários do filme The Way, na cena onde o rapaz cigano é obrigado a carregar a mochila da personagem até às portas da cidade.
Reencontrámos de novo os nossos amigos catalães, que seguiam no seu ritmo animado de sempre.
Hontanas já estava próxima, mas não havia nem sinal da aldeia, naqueles que foram dos quilómetros mais longos da etapa. Eu acompanhei o Óscar nos quilómetros finais, enquanto que o Ricardo e o Júlio foram mais à frente numa espécie de sprint final.
Quando faltavam cerca de 500 metros para o destino, vimos finalmente as indicações da povoação e estávamos finalmente em “casa”.
Desta vez ficámos no albergue Santa Brigida, um albergue muito simpático e acolhedor que cumpre a regra que se está a estabelecer e que diz que o melhor é mesmo planear este tipo de viagem de maneira a dormir sempre em povoações pequenas.
O jantar de hoje foi cortesia do Óscar que nos preparou uma deliciosa tortilla.
Com mais uma etapa de 80 quilómetros para o próxima troço, nada mais nos restou senão descansar. E como a Vodafone não tem sinal nesta aldeia, a publicação desta crónica ocorrerá durante esta sexta-feira, logo que haja rede.










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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #6 em: Maio 22, 2012, 01:51:49 »

05/08/2012 - Etapa 6
Hoje ultrapassámos oficialmente a fasquia do 1/2 da viagem. Temos neste momento 417 quilómetros acumulados, que já começam a fazer-se sentir não propriamente nas pernas, mas noutras zonas mais sensíveis. A expressão do dia é, com autoria do Óscar, “el culo destrozado”:), atendendo às inúmeras horas que temos passado na bicicleta.
A noite foi bastante repousante, não obstante o facto de o albergue estar mesmo junto a uma igreja que marca as horas e cada 1/2 hora com o sino. Como a etapa de ontem foi longa, o cansaço foi mais forte que as campanadas.
O pequeno almoço de hoje foi tomado no próprio albergue, pois Hontanas é uma aldeia muito pequena, perdida no mapa, onde há pouca coisa (mas conta com piscinas municipais:)). Foi uma refeição bem composta, com um belo croissant tipo francês, com manteiga e doce, leite achocolatado, fruta e um queque de chocolate. Por este andar vamos terminar o Caminho com mais peso do que quando começámos:).
A saída de Hontanas fez-se por um trilho um pouco acidentado, que nos levou ao caminho principal.
Passámos pelas Ruínas do Convento de San Anton, uma obra que reflecte um pouco a imagem desta zona de Espanha bastante conservadora no sentido de preservar os seus monumentos.
O primeiro desafio do percurso chegou aos 13 quilómetros, com uma subida de 1050 metros com 12% de inclinação. Um italiano passou por mim e numa tentativa de me incentivar, dizia algo como “piano! Piano”, sugerindo que eu fosse subindo devagar. A única coisa que me vinha à cabeça era que um piano já eu trazia às costas, por cima tendo em conta que a partir de hoje eu e o Ricardo teremos de carregar também as doses dos suplementos que tínhamos deixado em Hontanas aquando da viagem de carro no passado dia 30 de Julho.
Do outro lado do monte esperávamos uma descida com 15% de inclinação e que mesmo sendo pavimentada com betão, impôs algum respeito.
Hoje continuámos a senda por estradões, com um relevo muito pouco acentuado e uma paisagem salpicada por campos de trigo e de girassol. O tempo tem também dado algumas tréguas, uma vez que a temperatura de hoje foi substancialmente inferior à dos outros dias. De acordo com a previsão meteorológica, é provável que venha a chover nos próximos dias. Esperemos que não, porque isso complicaria não só a progressão no terreno,mas também a manutenção das bicicletas e do próprio vestuário.
A existência de alguns canais trouxe algumas verde à paisagem percorrida, em percursos planos onde facilmente se mantinham os 30-35 km/h. Por esta altura perdemos o Óscar de vista, com as nossas paragens para ir tirando fotos. Encontrámo-lo mais tarde em Fromista, a refrescar-se com uma bela caña.
Daqui para a frente viemos sempre juntos, até cerca de 20 quilómetros depois, quando chegámos a Carrion de los Condes.
Como já estava mais que na hora de almoçar, fomos à procura de um supermercado para repetir a receita vencedora, sempre com uma ou outra variação.
A escolha do local para fazer a refeição não podia ser mais óbvia: Carrion de los Condes tem um rio com uma praia fluvial num parque da vila. Encontrámo-lo rapidamente e depois da farta e refeição fomos apaziguar um pouco o cansaço das pernas nas águas do rio. Seguiu-se a já tradicional sesta e por volta das 16h seguimos viagem.
Foram uns quilómetros muito aborrecidos. A maior parte do percurso (inclusivamente antes de Carrion) acompanham uma estrada nacional e indo de bicicleta, preferimos rolar no alcatrão. As imensas horas na bicicleta começam a reclamar terreno e o traseiro começa a ressentir-se bastante.
Ao final do dia chegámos finalmente a Terradillo de los Templarios, onde vamos ficar nesta noite, num albergue muito simpático e com excelentes condições cujo nome é Los Templarios.
Na próxima etapa contamos com mais 80 quilómetros, rumo a uma pequena povoação chamada Villar de Mazarife.







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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #7 em: Maio 22, 2012, 01:51:56 »

06/08/2012 - Etapa 7
O dia de hoje começou muito envergonhado. O céu estava absolutamente carregado de nuvens e soprava um vento gelado que nada tem a ver com o Verão. Por isso, pela primeira vez vestimos os casacos para conseguirmos fazer-nos à estrada.
Mais uma vez esperava-nos longos quilómetros se estrada infindável, na continuação dos percursos monótonos que têm caracterizado os últimos dias.
O caminho em si segue, na maior parte da sua extensão, num carreiro ao lado da N120. Embora tenhamos ciclado bastante no carreiro, de modo a poupar o rabo a sofrimento desnecessário, fizemos bastantes quilómetros em alcatrão.
O Óscar hoje estava cheio de pedalada, dado que a certa altura Deixámos de o ver. Iríamos encontrá-lo mais tarde a recuperar forças em Fromista. Tínhamos neste momento quase 45 quilómetros feitos de uma longa viagem.
Fizemos os 25 quilómetros que nos separavam de León, onde fizemos a nossa refeição habitual. Desta vez superámos todas as sanduíches que já comemos, não só pelo excelente pão mas também pela iguaria tradicional de León que consiste numa espécie de presunto de vaca fumado. Estava divinal.
Hoje foi a minha vez de ter um azar. Algures no centro de León os meus óculos de sol caíram ao chão sem que me tivesse apercebido (iam pendurados numa das correias da mochila). Ainda dei umas quantas voltas nos locais por onde passámos, mas numa zona tão plena de gente como o centro de León não há hipótese. Após o almoço ainda fui a uma loja de bicicletas, na expectativa de comprar uns óculos novos. Contudo, por ser sábado não tive hipótese.
O Ricardo tinha feito a viagem de Fromista a León um pouco mais depressa que o grupo, na expectativa de encontrar uma loja de bicicletas e arranjar o travão. Infelizmente não conseguiu resolver o problema, pois na loja tentaram colocar óleo mas ao mesmo parece que o problema é outro.
O Ricardo e o Júlio optaram por não repousar após o almoço e seguiram logo viagem em direcção a Villar de Mazarife. Eu fiquei um pouco mais em León com o Óscar, aproveitando para visitar a catedral que é considerada uma das mais bonitas de Espanha, com os seus fantásticos vitrais.
Ao sairmos de León avistei uma placa do El Corte Inglés e lembrei-me que talvez pudesse lá encontrar um par de óculos que me servisse para o resto da viagem. Sorte a minha que tinham em promoção neste sábado e domingo uma série de modelos por 9.95€. Ficou assim resolvido o problema.
Seguimos até ao nosso destino, tomando mais adiante o corte para a alternativa de Villar.
O dia de hoje marcou também a despedida do grupo de amigos catalães com quem temos convivido, uma vez que optaram pela outra variante do caminho, e amanhã irão fazer uma etapa mais curta, a nossa. O Júlio também se despedirá de nós amanhã, dado que ficará por Astorga.
Este domingo teremos o nosso maior desafio para superar, com cerca de 110 quilómetros para fazer e o alto da Cruz de Ferro para subir.
Aproveito para referir três coisas: em primeiro lugar agradecemos a todos aqueles que têm acompanhado e comentado os nossos resumos etapa a etapa. É sempre muito bom contar com o apoio daqueles que estão longe mas que nos dão sempre a força necessária ao final de cada dia.
Em segundo lugar devo referir que estas crónicas não conseguem, infelizmente, transmitir tudo o que vivemos dia a dia no Caminho. Gostaria de ser mais extenso nas crónicas, mas o cansaço ao final do dia sobrepõe-se a tudo e mesmo para escrever estas crónicas é preciso fazer um esforço enorme para não adormecer entretanto.
Finalmente, dado que estas crónicas são escritas a partir de um Android, não se admitem se houver algum erro ortográfico ou algumas palavras mal formadas no texto. É que não é mesmo nada fácil redigir textos destes num dispositivo tão pequeno.











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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #8 em: Maio 22, 2012, 01:52:03 »

07/08/2012 - Etapa 8
Hoje foi sem dúvida um dos mais violentos dias que já tivemos. O corpo já tem algum cansaço acumulado e os cerca de 110 quilómetros que fizemos hoje não perdoaram.
O pior de tudo é que, embora a altimetria nem fosse nada assustadora, com grande parte do percurso em terreno ou plano, ou com uma inclinação aceitável, hoje foi o dia em que subimos ao ponto mais alto do Caminho Francês, na Cruz se Ferro.
A viagem começou serena, por rectas entre vários campos de cultivo hortícolas. Quando chegámos a cerca de 16 quilómetros de Astorga, optámos pela alternativa que seguia em frente e que prometia menos 4 quilómetros indo pela estrada. Tendo em conta o desafio de tínhamos pela frente, pareceu-nos a melhor opção. Na realidade não foi, pois acabou por nos levar por uma volta um pouco maior e que se juntou ao caminho original muito pouco tempo depois da bifurcação.
Logo de seguida encontrámos umas vacas que têm alguma fixação especial por bicicletas, dada a sua curiosidade em provar as rodas das nossas bicicletas.
Seguimos viagem por caminhos dignos de um carrocel, com um sobe e desce constante.
A primeira paragem foi em Astorga. O Óscar já lá estava, dado que se adiantou. O eu vinha com o Júlio, mas não havia sinal do Ricardo. Ele tinha ficado para trás, traído pela sua mochila, que cedeu numa das articulações da estrutura do arnês.
Passado algum tempo o Ricardo chegou e o Júlio acompanhou-nos até à saída de Astorga, altura em que nos despedimos (o Júlio ficou-se por aqui hoje).
Seguimos por mais uns quantos quilómetros até que chegámos a Rabanal del Camino, por volta da hora de almoço. Como ainda faltavam 6 quilómetros sempre a subir até à Cruz de Ferro, decidimos almoçar por aqui. Fomos primeiro a uma pequena tasca que anunciava um menu completo por um preço agradável. Como estava fechada, fomos ver o que se comia num dos albergues. Calhou mesmo bem que a tal tasca estivesse fechada, porque comemos divinamente.
Tivemos pena de não passar a noite neste albergue, pois era muito engraçado. Quando entrámos parecia que estávamos numa feira medieval, tendo em conta a aparência do pátio para o qual se entra directamente. Fomos recebidos por uma senhora muito simpática que queria que ficâsssemos lá hospedados.
Pouco tempo antes de sairmos surge o primeiro peregrino português que conhecemos no caminho e, chegava também de bicicleta.
O momento más angustiante do dia chegou com os 6 quilómetros de subida até os cerca de 1450 metros. Fizemos a subida essencialmente or alcatrão, para poupar as pernas e principalmente o rabo.
Após uns longos minutos a penar, chegámos à famosa Cruz de Ferro.
A seguir chegou o momento alto do dia. Toda a subida acumulada ao longo do dia foi compensada por cerca e 20 quilómetros de descida. E que descida! Foz praticamente todos os trilhos pedestres e foi extenuante ultrapassar todas aquelas descidas técnicas, em boa parte em single track.
Em Molinaseca esperavam-me o Óscar e o Ricardo que, por causa dos alforges e da ausência de travões, respectivamente, optaram pela descida por alcatrão.
Foi uma pena termos passado por Molinaseca tão tarde, pois a água da praia fluvial estava mesmo convidativa. Como ainda nos faltava muito para Vilafranca del Bierzo, não tivemos outra hipótese senão continuar.
O últimos quilómetros são sempre os mais longos e por cima eu vê o Óscar interpretámos mal uma sinalética no caminho, o que nos fez ir por outro caminho e perder pelo menos 15 minutos.
Chegámos ao albergue já bastante tarde e o tempo escasso até que este fechadas foi o mínimo suficiente para um duche rápido e dirigirmo-nos ao restaurante mais próximo para jantar.
Na etapa 9 espera-nos uma distância relativamente curta, embora inclua a subida até à O Cebreiro, cujo acesso em subida é muito famoso.









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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #9 em: Maio 22, 2012, 01:52:11 »

08/08/2012 - Etapa 9
Após uns quantos dias com etapas acima dos 85 quilómetros, hoje foi dia de relaxar um pouco.
Tínhamos pela frente uma etapa de pouco mais de 45 quilómetros, bastante acessíveis, com excepção da poderosa subida a O Cebreiro.
A manhã estava bem fresca, proporcionando a temperatura ideal para rolar sem grande calor.
Tivemos um pouco de azar ao pequeno almoço, dado que algumas das coisas que estavam incluídas no buffet tinham-se esgotado antes que tivéssemos sequer hipótese de lhes por a vista em cima. Ainda assim foi possível fazer uma primeira refeição decente, algo absolutamente essencial num dia a dia normal e mais que obrigatório nesta nossa viagem.
A etapa propriamente dita começou com uma descida em alcatrão ao longo de uma estrada que serpenteia ao longo dos vários montes que definem o perfil desta zona. Não demorou muito até que a saborosa descida desse lugar a uma subida um tanto ou quanto comedida na inclinação, que se percorreu sem grande dificuldade. Ao longe, na encosta dos montes, era visível o trilho de uma alternativa oficiosa do caminho que é sobejamente elogiada por quem já a percorreu. Como ainda tínhamos os 110 quilómetros do dia anterior em memória e o enfoque de hoje era o esforço mínimo, nem sequer ponderámos essa opção.
O ritmo foi sempre muito certo, num percurso repleto e peregrinos quer a pé, quer de bicicleta. Como já estamos perto de Santiago, vamos vendo cada vez mais peregrinos a circular, dado que a distância mínima para obter a Compostela (“diploma” para quem termina o Caminho) é de 100 e 200 quilómetros para peregrinos a pé e de bicicleta, respectivamente.
Passados 22 quilómetros começou a verdadeira subida de hoje, no acesso de 6 quilómetros até O Cebreiro.
Quando chegámos à bifurcação entre o percurso pedestre e o de bicicleta (por alcatrão) continuámos pelo acesso alcatroado, pois ao que parece o percurso pedestre é muito pouco ciclável. Foi neste ponto que encontrámos portugueses pela segunda vez na viagem. Uma das raparigas do grupo disse-nos que estavam a fazer o caminho desde Salamanca, pela Via de la Plata.
Eu e o Óscar adiantámo-nos um pouco na subida e em La Faba acabámos por entrar no percurso pedestre por engano, ao seguirmos as setas na aldeia. O Óscar estava um pouco inconformado ao início, pois planeava fazer a subida toda montado na bicicleta e de facto o percurso pedestre tem partes bem complicadas de gerir, em particular com muita gente a circular a pé e com alforges na bicicleta. Acabámos por apanhar novamente a estradaonde reencontrámos o Ricardo, que seguia entretanto à frente.
A primeira paragem do dia foi em O Cebreiro, primeiro para admirar a bela paisagem e depois para admirar uma bela sandes com um pão galego fantástico, muito semelhante ao pão tradicional da aldeia em Portugal.
Estava imenso frio. O vento que nos tinha fustigado ligeiramente na subida estava a a ser incómodo. Ao contrário dos meus companheiros, que matavam a sede com uma bela caña, eu optei por um reconfortante chá, para ajudar a subir a temperatura corporal.
Saímos de O Cebreiro saciados com a sandes, sem grandes planos para o almoço. Pedalámos por uma irá parte do caminho muito bonita, ao longo da encosta que ora subia, ora descia. Viríamos a apanhar de novo a estrada mais adiante e o Óscar, temendo pelo bem estar do seu traseiro e para poupar um pouco as pernas hoje, entusiasmou-se um pouco no alcatrão e liderou-nos na descida quase sempre pela estrada. Tendo em conta o perfil do terreno, creio que teria sido uma opção mais divertida ter seguido pelo caminho original, mas por outro lado chegámos bastante cedo ao nosso albergue.
Depressa nos esquecemos da sandes do meio dia e decidimos ir almoçar de faca e garfo num restaurante perto do albergue. E dado que já estamos oficialmente na Galiza, nada melhor que comer um belo “pulpo”  .
Dormimos uma bela sesta logo a seguir ao almoço, até cerca das 19h30. Era hora de decidir o jantar e o Ricardo sugeriu confeccionar um arroz de polvo. Por altura da redacção desta crónica ainda não iniciámos a refeição, mas tendo por base as refeições que o Ricardo já preparou anteriormente, estou certo que nos espera uma bela iguaria.
Com o aproximar de Santiago, começa a notar-se a escassez de alojamento, tal é a quantidade de pessoas a circular. O nosso albergue (e creio que também os restantes de Triacastela) já estava esgotado. A opção da reserva antecipada revela-se aqui uma mais valia, pelo menos nas etapas finais.
Amanhã serão 65 quilómetros de sobe e desce pela Galiza a dentro. Esperam-nos trilhos verdejantes como tanto gostamos, pelo que espero termos a oportunidade de aproveitar ao máximo os últimos quilómetros dos trilhos o Caminho.






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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #10 em: Maio 22, 2012, 01:52:19 »

09/08/2012 - Etapa 10
A etapa de hoje resume-se a uma palavra: fantástica! Se houvesse um dicionário do Caminho, Galiza seria sinónimo de verde e de sobe e desce.
A saída de Triacastela foi particularmente gelada, com uma temperatura particularmente baixa. Tomámos o pequeno almoço num pequeno café perto do albergue, onde reencontrámos dois sul coreanos que tinham passado pelo nosso albergue no dia anterior, à procura de sitio para dormir. Não conseguiram lugar no nosso albergue, mas de alguma forma conseguiram dormir na localidade.
Fomos descendo pela estrada, que ia alternando com percursos em terra. Aliás, a etapa de hoje foi muito neste género.
A certa altura tivemos de fazer uma nova opção de caminho e dado que o que consta é que o percurso de Samos é muito mais bonito que o de San Xil, fomos por aí.
As descidas foram fantásticas, em trilhos que são do melhor que pode haver.
Samos tem um mosteiro fantástico, embelezado pelo rio Sarria que passa pela localidade. Após uma breve volta ao monumento para o registar em foto, seguimos viagem.
Mais tarde, quando eu e o Ricardo abordámos um trilho que estava marcado no track gps que tínhamos carregado e que era uma alternativa ao alcatrão, separámo-nos do Óscar. E como não seguimos em frente em certa parte do percurso alternativo, acabámos por andar às voltas num monte que aparentemente não tinha saída. Voltámos para trás e seguimos caminho pela estrada.
Mais adiante, enquanto o Ricardo seguia um pouco adiantado em relação a mim, não se apercebeu de uma marcação do caminho e que indicava para a direita. Ainda chamei por ele, mas como seguiu assumi, tivesse optado por seguir pelo alcatrão, dado que os travões quer da frente quer de trás da bicicleta do Ricardo já viram melhores dias.
Segui viagem por trilhos fabulosos, com vários single tracks de cortar a respiração. Tenho imensa pena que a GoPro só chegue no fim do mês, porque não há palavras ou fotografias de descrevam estes trilhos. Acabei por me encontrar com o Óscar mais tarde, na localidade de Sarria, junto a uma loja de bicicletas. Como tinha ficado mais ou menos assente que íamos tentar a reparação dos travões nesta localidade, esperámos cerca de 1 hora pelo Ricardo. Na realidade ele já ia mais adiantado, dado que foi seguindo o track que tínhamos para a etapa de hoje e como aparentemente este passa por caminhos que estão inutilizados de momento, acabou por passar longe de Sarria.
Acabámos por reencontrar o Ricardo em Porto Marin, numa altura em que eu e o Óscar estávamos a tratar da saúde a uma empanada de atum e a duas coca colas para o almoço.
No caminho até Porto Marin passámos por um grupo português de jovens que, ao verem a bandeira portuguesa que trago na mochila, me reconheceram como português. Fizeram uma festa enorme, enquanto lhes acenei e os perdi de vista na valente descida por onde seguia.
Depois da terminado o almoço, o Ricardo seguiu viagem. Eu e o Óscar optámos pela instaurada siesta digestiva e saímos de Porto Marin um pouco antes das 16h.
Porto Marin foi o ponto mais baixo do dia em termos geográficos, pelo que já se adivinhava uma bela subida até ao nosso destino.
Atravessámos a ponte que passa por cima do rio Minho (o “nosso” Minho que faz a fronteira entre Valença e Tui) e começámos logo a esticar as pernas numa subida acentuada, num trilho alternativo ao original, uma vez que este último se encontra de momento encerrado para obras.
O restante percurso foi pacífico, com subidas progressivas ora por caminho, ora por alcatrão.
Chegámos a Palas de Rei por volta das 17h20, e após um merecido banho fomos dar uma volta na povoação em busca de um sítio para jantar.
Como o frio que se faz sentir não apela muito ao passeio na rua e como a vontade de descansar é considerável, retirámo-nos aos nossos aposentos naquela que será a última noite em albergue. Creio que mesmo tendo em conta as vezes que partilhámos a divisão com vários peregrinos e os roncares e outros ruídos indiscretos que se fizeram ouvir de vez em quando, vamos sentir saudades desta rotina diária.
Amanhã partiremos Rumo a Santiago, na derradeira etapa desta grande odisseia. Faltam cerca de 65 quilómetros para o nosso destino e embora a hora de chegada seja sempre uma incógnita, esperamos entrar na Praça do Obradoiro entre as 17 ou 18 horas locais. Podem acompanhar o nosso progresso, como sempre, no mapa dinâmico do nosso site e com um pouco de sorte e pontaria no olhar, pode ser que nos vejam na webcam que está instalada na Praça e cujo feed podem encontrar na nossa secção de multimédia.













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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #11 em: Maio 22, 2012, 01:52:27 »

10/08/2012 - Etapa 11
E como tudo o que é bom, a nossa aventura chegou ao fim. Eram cerca de 18h00 locais quando entrámos na Praça do Obradoiro, na derradeira etapa da viagem que nos ocupou as mentes (e as pernas) nos últimos 11 dias.
Começámos o dia relativamente cedo, pois à semelhança do que se passa em todos os albergues, a maior parte dos peregrinos levanta-se sempre muito cedo. Como desta vez o nosso quarto estava praticamente cheio com jovens do mesmo grupo, levantaram-se todos ao mesmo tempo, por volta das 5h da manhã.
Virámos a cara para o outro lado e continuámos a dormir mais um pouco. Eram cerca de 7h45 quando o sentido de obrigação de nos levantarmos falou mais alto e começámos a preparar as coisas para a última etapa.
A manhã fazia-se sentir bem gelada, pelo que pela última vez recorremos aos casacos. No entanto mais tarde percebemos que não lhes iríamos dar muito uso, uma vez que ficámos “retidos” em Palas de Rei durante algum tempo.
Circulámos um pouco pela vila para procurar um supermercado, a fim de aviarmos as compras da manhã para um pequeno almoço económico. Parámos numa pequena praça, onde o Óscar tratou de ir dividindo a ração de bolo que tínhamos entretanto comprado. Pouco tempo depois somos surpreendidos por um grande grupo de freiras que transportavam mochilas às costas. Não deixou de ser uma cena curiosa, uma vez que não é algo que se veja todos os dias.
Foi nessa altura que o Ricardo se apercebeu mais uma vez que os travões da sua bicicleta continuavam a manifestar muito pouca eficácia (na realidade já praticamente que não travavam). O Óscar perguntou por uma loja de bicicletas, a que lhe deram umas indicações de um sítio a 500 metros de onde estávamos que poderia servir-nos de ajuda.
Quando chegámos à loja, ficámos com alguma dúvida se nos iriam ajudar, uma vez que não era uma loja especializada em bicicletas, mas sim em ferramentas mecânicas (moto-serras, máquinas de jardinagem, etc) e peças para automóveis. Contudo, as poucas bicicletas BH que estavam penduradas na montra deram-nos alguma réstia de esperança.
Fomos atendidos por um rapazinho muito novo, que se prontificou a tentar ajudar-nos da melhor forma. Recolheu a bicicleta para dentro da oficina e o primeiro diagnóstico mais exaustivo foi… falta de óleo no circuito. Este diagnóstico espantou-nos, dado que o mecânico de León tinha dado a entender que não seria esse o problema. A verdade é que, passadas cerca de duas horas, o Ricardo tinha finalmente travões minimamente decentes na bicicleta.
Saímos por volta das 11h30, um pouco apressados, uma vez que não contávamos com este pequeno precalço.
Voltámos a fazer imensos trilhos fantásticos, num constante sobe e desce “rompe piernas” tremendamente divertido. A ideia que ficou foi a de que estes trilhos merecem a pena serem feitos novamente, mesmo que não seja no âmbito do Caminho, pela qualidade e diversão dos mesmos.
O Caminho estava hoje “saturado” de pessoas. Estamos já muito próximos de Santiago e a quantidade de gente a circular no Caminho tem aumentado exponencialmente. A nossa sorte foi, quiçá, termos partido mais tarde do que o habitual, o que nos permitiu evitar as horas de maior enchente.
À semelhança dos últimos dias, eu fui acompanhando o Óscar no percurso e o Ricardo foi adiantando-se um pouco. Quando faltavam 27 quilómetros para Santiago, o Óscar já sentia alguma fraqueza que merecia ser compensada pela refeição do almoço. Decidimos, por isso, parar na povoação onde nos encontrávamos e comer qualquer coisa.
Fomos a um pequeno snack-bar onde o proprietário, muito engraçado e falador, nos aconselhou um chouriço típico da zona e com cujo produtor ou distribuidor já trabalha há cerca de 15 anos. A verdade é que esse chouriço frito dentro de uma bela baguette de pão galego, acompanhado por uma bela Estrella Galicia, soube-nos pela vida.
O Ricardo aguardava-nos 4 quilómetros mais adiante, pelo que nos reunimos de novo pouco tempo depois.
Continuámos pelo Caminho, num percurso sem grandes pormenores técnicos, que mais tarde deram lugar a caminhos semi alcatroados ao longo do aeroporto de Santiago de Compostela.
Por volta das 17h25 entrámos finalmente na cidade de Santiago, momento que ficou registado em fotografia junto à placa informativa com o nome da cidade. Nesse momento estavam três peregrinas a chegar a Santiago a pé, que nos informaram que tinham iniciado o Caminho também em Saint Jean Pied de Port, mas há 30 dias atrás.
Registada a foto, seguimos caminho até nos depararmos com uma rua que faz parte da entrada do Caminho Francês e que está barrada a bicicletas (pelo menos tem o sinal de trânsito proibido a bicicletas). Decidimos respeitar o sinal e contornámos a zona histórica da cidade pelo lado direito.
Depois de umas quantas voltas, acabámos por optar pelo ilícito e entrámos no centro através de alguns sentidos proibidos. Afinal de contas éramos peregrinos e estávamos convencidos de que a polícia teria alguma tolerância. E assim foi e ao fim de meia dúzia de curvas, estávamos na Praça!







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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #12 em: Maio 22, 2012, 10:57:54 »
Quero  ;D ;D ;D
Já tinha lido e visto este relato, em rumoasantiago.com e voltei a revelo novamente ao pormenor, grande travessia esta  ;D ;)  está nos meus planos para 2014 ano em que faço 50 Primaveras, vamos ver se a Troica deixa  >:( >:(  Tenho uma ou duas duvidas que me deixaram curioso.
Os Albergues têm que ser marcados antecipadamente? E a comida confeccionada é comprada antes mas depois os temperos a loiça etc.. está nos albergues? As etapas que realizaram estavam bem divididas ou alteravas alguma, é que eu baixei as vossas etapas e são as que penso realizar também em 2014. Se houver algum pormenor que queiras alertar agradeço
 
Cumprimentos
António Narciso
Caminho Português-Porto Santiago- 2009,2010,2011,2012 e 2013 novamente em 2014 Caminho Francês para Santiago em  2015

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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #13 em: Maio 22, 2012, 11:21:26 »
Relativamente aos albergues, o melhor é mesmo reservar com alguma antecedência, porque o Caminho Francês tem muita gente a percorrê-lo e os albergues esgotam num instante. Nós reservámos os albergues com mês e meio / 2 meses de antecedência.
Isto só se aplica aos albergues privados, porque nos municipais não é possível fazer reserva. De qualquer modo, como a diferença entre privados e municipais nem é muito grande (o preço que pagámos nos albergues privados onde ficámos andou entre os 5€ ou 6€ pelo mais barato e 11€ pelo mais caro), mais vale ter uma reserva assegurada.
Não se esqueça é de telefonar sempre no dia anterior para o albergue onde vai ficar no dia seguinte, porque a norma é anularem a reserva se não receberem um contacto das pessoas com a devida antecedência. Isso foi o que nos aconteceu logo na primeira etapa :).


Em relação à comida, muitos dos albergues têm cozinha. Como o nosso grupo tinha um membro que é bom cozinheiro :), aproveitámos isso e confecionámos refeições em alguns dos jantares. A loiça faz parte dessas cozinhas e normalmente há sempre tempero à disposição (pelo menos azeite e vinagre). Nos casos em que não há entra-se no espírito do peregrino, compra-se uma garrafa de azeite ou de vinagre (que nem são assim tão caras) e deixa-se no albergue para os próximos que vierem.


Relativamente às etapas, para fazer em 11 dias, modéstia à parte acho que a minha divisão é o ideal. No entanto se repetisse a experiência talvez fizesse a travessia em 12 dias (ou até mesmo 13) em vez de 11, para poder relaxar mais ao fim de cada etapa. Digo isto porque houve algumas etapas mais longas que não nos deixaram muito tempo para visitar a localidade onde ficámos (tivemos uma de 115km em que mal tivemos tempo para jantar antes do albergue fechar).
Eu tenho um ficheiro Excel que usei para planificar cada etapa que posso partilhar. Dividi o percurso em sub-etapas pequenas que fui juntando pedaço a pedaço para criar cada uma das etapas.
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Re: 2011/07/31 - Caminho Francês (11 etapas)
« Responder #14 em: Maio 22, 2012, 22:22:15 »
Excelente Norberto!
Os meus parabéns aos 3 aventureiros!
Já tinha também lido no site de Rumo a Santiago, mas não me canso de rever o Report!
Quero fazer este Caminho, e vou fazê-lo no próximo ano! apesar de haver menos feriados para conjugar com as férias, não vão faltar dias bons para fazer o Caminho!
Obrigado pela partilha! ;)